Eu não tenho mais uma desculpa para viajar sozinho, e eu sinto falta disso.

Sinto falta de quando eu fazia o check-in para um voo e me pegava analisando o salão de espera, imaginando quem daquelas pessoas sentaria ao meu lado.

Eu sempre tinha esperanças de fazer um amigo na viagem, embora continuasse preferindo “sentar na janela”, assim eu poderia fixar meus olhos no horizonte e evitar uma conversa caso a pessoa ao meu lado fosse desagradável, o que, devido a minha sorte, era o que geralmente acontecia.

Eu quase sempre tinha a “sorte” de sentar ao lado de alguém cuja a massa corporal, ou pior, o cheiro, se expandia além do descanso do assento e invadia o meu território. Mas mesmo assim, era algo que eu podia escrever sobre, e até dar risadas, silenciosamente.

As melhores conversas sempre acabam sendo aquelas que você tem consigo mesmo.

Quando você está sozinho, cada momento é uma oportunidade para algo interessante acontecer. Há quase sempre lugar para mais um, mas geralmente não para dois.

A primeira vez que viajei sozinho, eu fui de Londres a Paris, onde eu estava fazendo intercâmbio. Quando eu passei com minhas malas pela segurança do Gare du Nord, eu sem perceber derrubei meu passaporte, até que um estranho percebeu e pegou para mim.

A bondade de estranhos é o ponto alto quando você está livre da sua tribo de amigos, que te marcam como propriedade deles. Quando você viaja sozinho, você pertence à todos.

Há outras vantagens de viajar sozinho. Como parar para tirar fotos sem fazer ninguém te esperar. Criar seu próprio itinerário. Comer o que quiser e onde você quiser sem precisar entrar em um debate. E perceber que ficar quieto e somente observar pode ser ótimo.

Quem sou eu, indefinido nesse território estranho? Talvez eu seja um turista. Talvez eu seja um transeunte misterioso. Ou talvez eu seja apenas uma pessoa buscando uma conexão. Assim como todos os outros.

A segunda vez que viajei sozinho, eu fui para Hong Kong com apenas uma mochila e fiz meu check-in no Geo-Home Holiday Hostel. Meu quarto era do tamanho de uma cela de prisão, mas tinha tudo o que eu precisava. Eu estava livre para ir e vir como eu quisesse. Sai andando pela cidade sozinho e me senti como se tivesse preso no sonho de alguém, ou em um filme, ou em um universo onde eu era invisível.

Na manhã seguinte, acordei, lavei meu cabelo, e comi Shrimp Balls (Bolas de camarão) com molho picante, tudo por menos de $2 dólares. Passei o resto do dia andando em Lan Kwai Fong, parando para comer um delicioso chá de bolhas, em seguida um egg tard, depois uma sopa de barbatana de tubarão com churrasco de frango.

Mais tarde eu fui jantar no restaurante Modern Toilet e me lembrei do livro da Mary Douglas, Purity and Danger, me perguntando porque alguém (incluindo eu) iria querer comer em um restaurante que possui a decoração de um banheiro. Curiosidade, eu acho, é o que me atraiu.

Depois, continuei caminhando com minhas havaianas, meus olhos já cansados com as incessantes luzes de neon espalhadas pela cidade. Quando retornei para o meu minúsculo quarto, encontrei a dona do hostel, uma senhora conhecida como Miss Kitty, me esperando para me dizer com preocupação que minha mãe tinha ligado. Eu agradeci e fui para o meu quarto. Quando comecei a digitar os números no telefone, percebi que mais algumas horas de preocupação até o amanhecer não iriam matar minha mãe. Fui então dormir e ter um dos sonos mais profundos da minha vida.

Viajar sozinho é tão subestimado. Será que é porque estamos tão desesperados para ficar conectados, com medo de estarmos sozinhos e tomar nossas próprias decisões? Será que precisamos de outras pessoas para validar nossos bons momentos?

Nós não deveríamos. Nós, e por “nós” eu quero dizer “eu”, deveríamos comprar uma passagem para aquela cidade, ou ilha, ou país que sempre quisemos visitar. Eu não preciso, nem devo, esperar por ninguém. Eu não vou esperar alguém me dizer que aprova minha ideia, ou que quer ir junto, ou que ele(a) têm um lugar para eu ficar lá. Eu só vou.

Este texto foi escrito em inglês pela Cyrena Lee para o Medium em 25 de Julho de 2015. Você pode conferir o original aqui.

Daniel Cavalcante

Author Daniel Cavalcante

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